ESTUDOS E REFLEXÕES

O passe
não é novo
na humanidade

Estudos e Reflexões · 6 min de leitura

Antes de perguntar se o passe funciona, vale perguntar outra coisa: por que a humanidade inteira, em todas as épocas e em todos os cantos do mundo, chegou a práticas tão parecidas?
Imposição de mãos, sopros, rezas, passes, energização. Nomes diferentes, gestos muito semelhantes. Isso não é coincidência — é pista.

Nos encontramos hoje, em várias partes do mundo, com pessoas em depressão, sem encontrar um sentido para suas próprias vidas, um vazio que não sabem explicar e que, muitas vezes, pensam que termina quando tomam a atitude extrema de sair desta existência por suas próprias mãos.

Mas o que é que dá realmente um sentido para a vida? Esta frase que escutei no seriado me fez pensar em algo bem interessante: tem que haver um “motivo” para continuar vivendo, continuar nesta experiência de crescimento e evolução que é a vida humana nesta terra, neste planeta tão abençoado que se dispôs a ser nossa morada para que nos tornássemos cada vez melhores e mais conscientes de nossa grandeza como seres especiais que somos, parte deste imenso Universo.

Parece uma visão romântica, mas se começarmos a estudar as diversas culturas ao redor de nosso mundo que consideramos tão “gigantesco” (mas que na verdade é menos que um grão de areia neste imenso Universo), veremos que todas elas trazem a noção de que somos maiores do que aparentamos aqui, que temos um “compromisso” espiritual e até galáctico de nos melhorarmos e crescermos todos juntos.

Uma prática mais antiga que qualquer doutrina

A imposição de mãos aparece nos registros mais antigos que temos da humanidade. Está nas práticas de cura dos povos antigos, nos textos sagrados de várias tradições, nos rituais de povos indígenas, nas tradições africanas que chegaram ao Brasil e se misturaram ao nosso chão. Muito antes de qualquer sistema explicar o fenômeno, as pessoas já praticavam — e já observavam resultado.

No século XVIII, o médico Franz Anton Mesmer tentou dar a essa prática uma explicação científica da sua época: o magnetismo animal. Foi um dos primeiros esforços sérios de estudar o fenômeno com método, ainda que com instrumentos teóricos que hoje sabemos ser limitados. O importante não é se Mesmer acertou em tudo — é que ele abriu caminho para que o tema saísse do puramente místico e entrasse no campo do estudo.

Foi nesse caldeirão de observações que Allan Kardec, no século XIX, codificou o passe dentro do Espiritismo: não como milagre, mas como processo — a transferência de fluidos vitais entre um passista e o recebedor, com a participação da vontade, da intenção e da fé de ambos. O passe espírita, portanto, não nasceu com o Espiritismo. Ele foi sistematizado por ele, como tantas outras práticas que a humanidade já fazia.

Há descobertas que nos fazem curar feridas muito antigas que ainda trazemos como a discriminação entre pessoas que não tenham uma condição física considerada “normal” – me pergunto: o que é normal? Se formos considerar que todos pertencemos à mesma raça: a humana, as diferenças de pele, cabelo, peso, aparência são apenas “variantes” encontradas dentro da raça, o que é considerado uma espécie.

A benzedeira do nosso quintal

E aqui chegamos ao nosso chão brasileiro. Quem de nós não conheceu uma benzedeira? A avó que fazia reza para “cortar” dor de cabeça, a vizinha que queimava ramos de alecrim, a senhora que passava a mão e rezava baixinho sobre uma criança assustada.

A benzedeira é, talvez, a expressão mais próxima e mais viva do que estamos estudando. Ela não estudou fluidos, não leu Kardec, não fez curso de Reiki — e mesmo assim pratica, há gerações, o mesmo gesto essencial: a mão, a intenção, a transferência de energia, a fé de quem dá e de quem recebe. Sua tradição é oral, transmitida de mãe para filha, com rezas herdadas e uma sabedoria que a universidade demorou séculos para olhar com respeito.

Aqui vale uma pausa importante: a benzedeira não é uma versão “atrasada” do passe, nem o passe é uma versão “evoluída” da benzedeira. São sistemas diferentes para o mesmo fenômeno humano. A tradição popular tem sua profundidade; a codificação kardeciana tem sua sistematização; o Reiki, vindo do Japão no início do século XX, tem seus símbolos e seus níveis de formação. Cada sistema tem sua linguagem, sua história e seu valor. A questão nunca foi qual é certo e qual é errado — a questão é entender como o processo funciona.

O que muda quando entendemos o processo

Quando paramos de competir sistemas e passamos a observar o fenômeno, algumas coisas ficam claras:

● O gesto é universal; a explicação é local. Cada cultura deu ao mesmo ato o nome e a teoria que seu tempo permitia.

● O que parece “novo” quase sempre é antigo com roupa nova. O Espiritismo não inventou o passe — organizou o que já existia.

● Estudar as origens não enfraquece a fé: ela amadurece. Quem entende de onde a prática vem, a pratica com mais consciência e menos dependência de dogma.

Para continuar o estudo

Se tu chegaste até aqui e algo ainda parece estranho ou novo, tudo bem — o estudo continua aberto, e é exatamente para isso que ele existe.

Nos próximos textos, vamos aprofundar como o Espiritismo explica o mecanismo do passe, o que a ciência contemporânea observa sobre práticas de imposição de mãos e onde o mistério permanece, honestamente, mistério.

Não vim dizer que tu deves acreditar. Vim te convidar a estudar.

escrito por

Leatrice Coli Ribeiro Pedroso

psicoterapeuta reencarnacionista e eterna estudante.

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